Na Base Operacional Avançada Normandia (Iraque).

Com frequência soldados retornam a antigos campos de batalha, a fim de homenagear os companheiros caídos e exorcizar os demônios persistentes que trazem dentro de si. Soldados britânicos retornam às Ilhas Malvinas (chamadas no Reino Unido de Ilhas Falkland). Os cemitérios da Normandia fazem parte do itinerário de vários membros da VFW (Veterans of Foreign Wars, organização estadunidense de ex-combatentes em terras estrangeiras) e da Legião Americana. Os veteranos da Guerra do Vietnã podem atualmente obter até mesmo pacotes turísticos para os locais em que combateram.

Agora, os norte-americanos feridos na Guerra do Iraque estão sendo levados de volta até os locais onde receberam os seus ferimentos, em uma iniciativa para ajudá-los a obter alívio psicológico. Esta é a primeira vez em que uma iniciativa desse gênero é experimentada enquanto uma guerra ainda está em andamento.


O programa de sete dias, chamado Operação Saída Apropriada, vinha sido conduzido de forma muito discreta, em parte porque o retorno a uma zona de combate é considerado um experimento delicado. Para os oito homens feridos que retornaram ao Iraque nesta semana, incluindo cinco soldados que tiveram membros amputados e um que ficou cego, a esperança é que a volta aos locais de onde vários deles saíram inconscientes ou padecendo de dores agonizantes possa garantir a eles que os prejuízos físicos e psicológicos que sofreram valeu a pena.

Foi isso o que pareceu ter ocorrido no caso do tenente Edwin Salau, que está na reserva. Ele foi um dos oito veteranos norte-americanos feridos que fizeram fila na última quarta-feira (14/10) para conhecerem o general Farhan Abbas, o comandante da brigada de exército iraquiana na província de Diyala, onde fica a base Normandia. "É uma honra estar aqui e constatar todo este progresso que foi feito", disse ao general iraquiano o tenente Salau, cuja perna esquerda artificial estava escondida por baixo do uniforme largo. "Nós demos muito ao seu país, e estamos contentes por isso".

"Você deve considerar os seus ferimentos como medalhas trazidas no peito", retrucou Farhan.

A Operação Saída Apropriada teve início a partir de uma pequena fundação localizada em Laurel, no Estado de Maryland: a Troops First ("Tropas em Primeiro Lugar"), apoiada pela United Services Organization (USO, instituição de suporte aos soldados norte-americanos) e bem recebida pelo comando militar no Iraque. Essa foi a segunda visita ao Iraque desde junho, mas a primeira foi feita em sigilo porque ninguém sabia ao certo como os soldados reagiriam a esse retorno.

"O patamar de desenvolvimento e o nível de conclusões de operações são fenomenais", disse o coronel David Sutherland, ex-comandante de brigada em Diyala, que veio na primeira viagem e disse que a situação estava melhor do que ele esperava. "Alguns dos soldados disseram que os seus terrores noturnos cessaram depois da visita".

Sutherland não foi ferido, pelo menos fisicamente, mas, como comandante de brigada que perdeu mais soldados do que qualquer outro em Diyala - um total de 110 durante uma longa missão do final de 2006 ao início de 2008 -, ele, também, considerou o retorno importante. "Eu deixei cerca de sete quilos de culpa no Iraque após a viagem porque constatei que houve uma mudança drástica", conta o coronel. A operação foi aprovada pelo Army Surgeon General (diretoria de saúde do exército dos Estados Unidos), segundo o médico John Olsen, um cirurgião do exército que se referiu à iniciativa como sendo "um importante passo psicológico". No entanto, Olsen admitiu não conhecer nenhuma pesquisa médica que endosse o valor terapêutico do envio de ex-combatentes de volta a uma zona de conflito.

Rick Kell, presidente do Troops First, diz que a motivação partiu dos próprios soldados feridos. "Trabalhando com eles no Centro Médico do Exército Walter Reed, eu escutava todo o dia essas pessoas dizerem que queriam voltar", contou Kell. Ele disse que o programa teve o cuidado de selecionar para o retorno apenas soldados que já haviam exibido um bom progresso na forma de lidar com os seus ferimentos.

Os veteranos receberam tratamento VIP no momento em que chegaram, no domingo, tendo se reunido com dignatários iraquianos e norte-americanos, incluindo o general Ray Odierno, o comandante norte-americano de mais alta patente no Iraque. Eles ainda participaram de reuniões para análise de dados de inteligência e depois disso passaram o resto da semana revisitando as suas antigas bases pelo Iraque.

O voo dos Estados Unidos até aqui, feito pelo sargento Luke Wilson, 29, de Hermiston, no Estado de Oregon, foi o primeiro que ele faz na vida na classe comercial.

"A classe comercial foi importante em se tratando de um voo de 13 horas, de forma que eles puderam deitar, remover as pernas artificiais e fazer outras coisas que lhe proporcionassem maior conforto", disse Kell. No início deste ano ele submeteu a ideia da Operação Saída Apropriada ao general Odierno.

"Isso me pegou de surpresa", contou Wilson. Ele perdeu a perna esquerda acima do joelho em um ataque com granada em Bagdá em 2004. "Nunca fui tratado tão bem na vida".

A seguir ele voltou-se para Lawrence Wilson, a mais graduada autoridade não comissionada na região, e perguntou: "Posso ficar, comandante?".

O grupo chegou nesta base, perto da cidade de Muqdadiyah, a nordeste de Bagdá, porque dois dentre os oito soldados que retornaram foram feridos quando estavam lá. Ao saírem dos helicópteros Blackhawk na zona de aterrissagem da base na quarta-feira, todos eles caminharam por conta própria para serem saudados por oficiais e soldados norte-americanos, que lhes deram tapinhas nas costas e os receberam como se fossem velhos amigos. Todos eles usavam uniforme completo, inclusive os quatro que passaram para a reserva. Os ferimentos ou próteses só eram visíveis para quem os observasse de muito perto.

Os dois que serviram nesta base de operações avançadas foram o sargento John Hyland, 38, de San Antonio, no Texas, que perdeu a perna esquerda e sofreu ferimentos na coluna quando um artefato explosivo improvisado atingiu o seu veículo Humvee em 2007, e o soldado Craig Chavez, 29, de Temecula, na Califórnia, que ficou cego devido a uma explosão de um artefato do mesmo tipo que destruiu a sua face - agora reconstruída - e lhe custou toda a visão do olho esquerdo e a maior parte da do olho direito.

Para Chavez, foi motivo de orgulho poder movimentar-se pela base sem ajuda. "Fiz isso porque tinha que fazer", explicou o soldado.

O que mais chamou a atenção dos soldados foi a atual ausência de barulhos na base. "A melhor coisa do mundo é o silêncio", disse Hyland. "Não ouvimos nada durante toda a semana. Nem explosões de morteiro, que eram tão comuns, nem o ruído distante de um artefato explosivo improvisado sendo detonado".

Hyland enfrentou momentos difíceis quando o grupo foi à sala memorial do batalhão, onde estão as fotos dos 65 soldados norte-americanos que morreram quando serviam aqui. Um dos mortos foi o enfermeiro Jonathan Rivadeneira, 22, do Queens, que, segundo Hyland, salvou a sua vida durante o ataque contra o seu Humvee em 11 de setembro de 2007. Três dias depois, Rivadeneira foi morto.

Sozinho diante da foto do colega por um momento, Hyland começou a chorar silenciosamente e, com dificuldade, ajoelhou-se para rezar. Ao sair para juntar-se ao resto do grupo para uma fotografia, ele ainda estava abalado, e os outros feridos o consolaram até que ele se recuperasse.

No entanto, até mesmo na sala memorial havia boas notícias. Tim Dotson, o comandante da unidade que serve aqui, o Segundo Batalhão do Terceiro Regimento de Infantaria, apontou para uma parede vazia à esquerda da porta. Todas as outras paredes estavam cheias de fotos.

"Aquela parede está vazia porque a unidade que nós acabamos de substituir não perdeu ninguém", explicou Dotson, 44, de San Antonio, no Texas. "Este é o novo Iraque, e aquilo que se faz aqui é parte disso". "Hurra", responderam de forma aprovadora alguns dos soldados.

"Estamos nos preparando para apagar as luzes, trancar a porta e voltar para casa", concluiu Dotson.

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